sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Muitas vezes pensei nas várias maneiras de me despedir de alguém. Muitas noites em claro.
- Podes despedir-te por carta.
- Não, ela merece mais do que isso.
- Então liga-lhe. Marquem um encontro.
- Não.
- Não consegues?
- Não é isso. Neste momento sei que tenho de partir. Tenho de a deixar intacta. Tal como ela era no dia em que a encontrámos naquele bar de rapaziada jovem, quando tínhamos os nossos vinte e oito anos. Tenho de a deixar como ela era. Não lhe posso retirar o chão que pisa. Os tempos eram outros e eu não tinha medo da conquista. Oh, estávamos todos na flor da nossa juventude! E ela era bela, tu sabes. Mais do que qualquer um de nós. E no momento em que a olhei nos olhos, posso jurar que soube que iria ficar com ela para sempre.
- Então, se lhe prometeste uma estadia eterna, porque partes?
- Há muito que a minha eternidade acabou. Sou um velho insosso e o meu prazotambém acabou, por isso terei de a deixar. Tal como o prometido. Mas não tenho coragem de a olhar nos olhos. Sei que me faria mudar de ideias. Ela consegue fazê-lo facilmente em mim. É a única capaz de me demover perante aquilo em que acredito.
- Então como tencionas fazê-lo?
- Talvez tenhas razão. Talvez seja melhor enviar-lhe uma carta.
- Pois. Vou só buscar papel timbrado e uma esferográfica. Coitadinha, partir-lhe-ás o coração.
- Não, eu não lhe vou escrever uma carta dessas. Eu quero deixá-la. Deixá-la simplesmente. Talvez numa paragem de autocarro ou na estação de comboios.
- Admite lá. Tu deixaste de a amar.
- Se eu deixasse de a amar, eu não estaria aqui a esta hora. O meu amor por ela é inesgotável. Mas eu não posso ficar.

Comprou uma centena de balões e no interior de cada um deixou uma mensagem e algumas fotografias. O tempo era escasso e a história era longa para se contar.
Depois soltou-os a todos na sala das plantas, por entre as margaridas e os arbustos. O hélio permitira que se agarrassem ao tecto, tal como dois amantes que se anseiam a cada segundo.
Quando ela chegou a casa, já ele havia partido. Deixara a cama feita com lençóis de lavado e pusera a correspondência na mesa da entrada.
- Já sabia que este dia acabaria por chegar. Prometera-me cem balões na sua ausência. Antes não os tivesse prometido.
E caiu no chão, quebrando.
Os balões rebentaram ao longo dos dias. E ela não lera uma única mensagem até chegar o dia 26 do mesmo mês.
Não esperou por ele, sabia que nunca mais apareceria.

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