A nossa casa antiga tinha um jardim. Não era muito grande, mas era suficientemente espaçoso para jogarmos à bola. Só tu e eu. Ela não gostava muito de se juntar a nós, felizmente. Tinha abetos, muitos. E às vezes plantávamos rosas. Conseguíamos ver o nascer do sol, mas não o víamos a pôr-se.
O nosso jardim era, finalmente o digo, pequeno. Quando ainda éramos crianças ele parecia-nos realmente grande, mas não agora que crescemos. Era pequeno, mas plantámos lá muitos sonhos. Cada um de nós tinha um quadradinho de ilusões. Muitas delas cresceram e pude colhê-las. Eram autênticos sonhos e só nós os podíamos concretizar. Outros secaram. Tal como a fonte romana que lá existia. E destroçaram-nos.
A casa tinha sido barata demais. Quase oferecida. E o jardim fazia parte dela. Gostava mais dele do que do meu quarto. E tu também, tu próprio mo disseste. O jardim valia mais que um palácio de cristal ou uma mina embutida de diamantes, para nós. E nós gostávamos tanto dele que passávamos lá noites. No Verão. Mas não as tardes. Deve ser por isso que agora não dormimos. Gostamos da noite, tal como eu gosto de ti. Não conseguimos esquecê-la e simplesmente fechar os olhos para a realidade. Havia tanto na noite que nos fascinava. Eu nunca queria dormir, mas acabava sempre por adormecer. Agora quem não consegue repousar estes olhos sou eu, e se calhar tu. Se calhar espero por ti. Se calhar morro todos os dias. Na noite. E não quero sonhar. Isso só o faço de dia, quando a realidade é pesada e clara (tu sabes como os meus pequenos olhos acastanhados não aguentam tanta luz).
O nosso jardim não era muito verde nem tinha muita luz. Era imperfeito, assim como só nós sabemos e gostamos. Mas era algo a que podíamos chamar de nosso e ninguém nos podia tirá-lo. Pelo menos era o que achava até ver as malas na porta e os nossos quadros deitados no rio. Nunca entendi a razão da sua brutalidade. Ela estragou as tuas obras de arte e nem sequer replicaste. Apenas te despediste do jardim.
"Desculpa nunca te ter contado da mudança de casa, não te queria ver assim, miúda...", mas eu nunca desculpei. Agora percebi a razão e digo o que nunca antes o fiz: eu desculpo-te. E não, nunca houve um jardim. Só blocos de sonhos e pilhas de ilusões e devaneios. Mas este devaneio eu não esqueço. Vou enterrá-lo no nosso jardim.
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