sábado, 28 de agosto de 2010

o tilintar de cristais e a claridade adrupta. foi assim que acordei. no início, garças reais sobrevoavam os céus e relva verde crescia nos telhados baixos, das casas da cidade. o sol reflectia no gelo, o que cegava qualquer um que gostasse de expor os olhos à luz. mas o gelo começava a derreter e as pessoas corriam cada vez mais devagar, como que aproveitando a vida, que lhes concedia a oportunidade de escorregar sobre as estradas recentemente construídas e o chão recentemente polido. limparam tudo. tudo. e tudo isto se passara na minha ausência, na minha noite em pleno dia. eu adormecera dias, semanas. talvez meses, não me lembro. e quando acordei, ouvi cristais baterem. mas a luz, oh, a luz. não me deixava apreciar toda a beleza da cidade. não me deixava ver as garças e a relva a crescer.
saí do casulo onde adormecera, levantei-me. senti-me tão culpada por o ter roubado a uma borboleta. tentei andar, mas o próprio chão parecia escorregar e eu estava descalça. olhei para ele. vi alguém igual a mim, a olhar-me de baixo. estranho, pensei. só então percebi que o chão era um espelho e que tudo na cidade se repetia. as pessoas em câmara lenta repetiam-se, multiplicavam-se numa multidão demasiado confusa para a minha cabeça recém-acordada. e eu corria. cada vez mais. e de tanto correr, o espelho começou a partir-se. quebrou-se em pedacinhos, como que uma fenda no gelo. e eu fiquei numa ravina, encurralada. com vontade de saltar. procurei o meu reflexo, mas vi-me desfeita. em pequenos pedaços. separada. foi então que eu caí.

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