Toda a sua vida fora um sonho. Um sonho tardio numa noite de Verão, mas não uma ilusão. Sonhara com ele noites e noites seguidas. Durante meses que se arrastavam. Mas uma noite foi mais longa que as outras e ela sonhou a noite toda. Uma noite completa de sonho, conseguem imaginar? Não queria acordar.
No sonho, ele tinha voltado. Voltado da viagem que nunca tivera acontecido. Estavam numa ponte, prestes a saltar e a deixar tudo para trás. Prestes a deixar a casa nova, com a mesa posta e a roupa arrumada dentro dos gavetões da cómoda de pinho. Prestes a deixar o velho carocha azul e toda a sua colecção de óculos. Também iam deixar todos os vestidos brancos de fazenda e uma vida. Anos e anos seriam esquecidos no rio. E acabariam por se afundar. Nem a impulsão se poderia opor, pois não tinha coragem nem força. Não havia maneira de saltarem separados, saltariam os dois. Os dois saltariam filiformes e homogéneos, como se fossem só um. E eles eram um, realmente. Ele era mais coração e ela era mais razão, mas no seu sonho completavam-se.
O piano deles estava no fundo do rio, prestes a lascar. E as fotografias, agora estragadas, boiavam na água escura e desmanchavam-se, como uma rosa sem pétalas.
Ele ia beijá-la, juro que ia. Mas ela acordou. Assim, de rompante. Um acordar tão egoísta e desumano. Depois daquele sonho, era tudo o que ela menos queria. E nem sequer demorou a perceber que a realidade tinha voltado à superfície. Tinha vencido o devaneio.
No sonho, ele mostrara-lhe a sua casa. E ela agora conduzia a toda a velocidade, com o pijama que não tivera tempo de despir, em direcção a casa dele. A mãe dele existia realmente e abriu-lhe a porta, olhando-a de alto a baixo. Mas ele não existia. Entrou na casa à força e dirigiu-se ao quarto que ficava na segunda porta à direita, no corredor. Era o quarto do sonho, mas não era dele. Sentou-se no chão de madeira clara e chorou. Desejou morrer. Ele não existia e a sua vida gora parecia não ter qualquer sentido.
Os meses seguintes passaram demasiado devagar. Procurou por ele em todos os lugares que o sonho havia resgatado. E nada. Ninguém conhecia o seu nome ou o associava a alguém pela descrição demasiado perfeita.
Três meses depois encontramo-la a boiar no rio. Não tinha pulso e morrera por afogamento. A polícia investigou, mas não fora suicídio. Curiosamente fora assassinada. Por ele, que farto de ser procurado, decidiu acabar com a sua vida. Era demasiado perfeito para ser descoberto por alguém como ela.
E agora digam-me: existem príncipes encantados?
está lindo , amei , amei mesmo *-*
ResponderEliminare tão sensivel que ando , fez-me chorar $:
ass: vera