sábado, 1 de maio de 2010

Há muito que morremos.

Eu fui lá outra vez em muitos anos de ausência. Não sei como consegui lá voltar, visto que neguei muitas vezes o meu regresso. Mas fui, um pouco grande nervosa e com a voz a tremelicar.
A casa tinha mudado menos do que os donos. Eles continuavam secos e velhos. Usavam os mesmos óculos tigrados e tinham o mesmo sentido de humor negro. Mas agora eles estavam cansados, notava-se no olhar pesado e na voz rouca. E nas mangas coçadas das camisas.
Quanto à casa... Bem, essa estava igual. À excepção do pássaro azul, que morrera, deixando a nossa gaiola vazia. Mas as paredes continuavam iguais: tinham muitas fotografias. Umas a preto e branco, outras a sépia e outras simplesmente velhas. Centenas de fotografias espalhadas na parede branca. Tal qual borrões de tinta da china numa folha. E nenhuma delas era minha, ou tua, ou nossa. Há muito que morremos.

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