quinta-feira, 19 de agosto de 2010

no meu sonho, passou-se tudo assim.

eu e a mia tínhamos envelhecido. haviam passado seis anos e corríamos feitas doidas, nas ruas da cidade do porto.
- mia, corre mais rápido! os autocarros não esperam por nós! - gritei eu.
e nisto a sua capa preta caiu no chão, abriu-se e uma chuva de folhas surgiu.
- as pautas! as pautas para a minha audição! não posso perdê-las! - disse-me a mia.
- mia, devem ter mais no conservatório. vem, corre!
- não posso, espera! - pediu ela.
e eu esperei. ajudei-a a recolher todas as folhas já húmidas que se espalharam por entre as ruas cobertas de folhas, também. estávamos no fim do outono.
- espera, não comeces já a correr... recebi uma mensagem do pedro. tenho de responder - disse pegando no telemóvel. - ele é tão querido!
- homens - disse eu, de forma a que as minhas palavras parecessem mais um suplício. não queria falar sobre eles.
- como é que não te consegues apaixonar? - e olhou para mim. os nossos olhares cruzaram-se e ela leu a resposta nos meus olhos, como sempre. o espelho da alma. - já passaram seis anos, mariana. não achas que está na hora de esqueceres? faz isso por ti. arranja alguém decente. éramos umas miúdas... não queres amar alguém a sério?
abri a boca, mas tudo o que saiu foi silêncio. tinha tanto para lhe dizer, mas ao mesmo tempo não tinha nada.
- não sei - foi o que saiu. por fim.
- bem, vamos correr outra vez? como nos velhos tempos - propôs mia, mudando de assunto. o que não era natural. ela nunca fugia ao assunto.
e assim, antecipei-me na corrida que não acabaria por ganhar. a rua estava com pessoas ocupadas e apressadas. era hora de ponta.
olhei para as pedras da calçada. tudo tão monótono. branco e preto. por momentos imaginei como seria ser uma pedra daquelas, por um dia, e de ser pisada pela multidão.
distraída a olhar para as pedras, alheei-me completamente da corrida. tropecei. fui contra alguém. talvez um homem. e os meus livros da faculdade caíram no chão. e os dele também. departamento de engenharia, li nas suas capas.
- peço imensa desculpa! - disse eu, atrapalhada com toda a situação. esperava que ninguém tivesse visto a minha queda. e ali estava eu ajoelhada, a separar os livros. e sentia-me embaraçada, descoordenada. nem sequer sabia se a mia tinha seguido em frente e se tinha reparado no pequeno acidente. mas não me preocupei muito com esse assunto.
- não tem mal. acontece, não é? sempre foste um bocado trapalhona... - disse a outra voz.
alto, alto, alto! eu conhecia aquela voz. reconhecê-la-ia em qualquer parte do mundo. nem que tivesse 80 anos e tivesse problemas auditivos. mas aquela voz...
levantei a cabeça devagar. muito devagar. até que me deparei com uma cara estranhamente familiar. pensei que se voltasse a ver aquele rosto, a minha reacção seria compôr-me. pentear o cabelo, ensaiar um discurso bonito, com palavras bonitas. mas nada era bonito naquele momento, para além daqueles olhos. eram os olhos mais bonitos que eu já vira. o olhar. podia dizer que eram verdes acastanhados. e um cabelo loiro escuro, volumoso e grosso, certamente o dele. eu não podia acreditar no que estava a ver. antes que pudesse falar, ele disse:
- sou eu, mariana. se calhar foi o destino a juntar-nos. mais uma vez.

1 comentário:

  1. destino!
    - bem o texto está lindo! sonhos destes também eu gostava de ter *.*
    amei!

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