Disseste que eu não ia dar conta, que o sofrimento acabaria por passar. E eu acreditei. Não tinha motivos para não te acreditar. Para não confiar nas frases que dizias quando me acariciavas a cabeça. Mas puseste termo à tua vida aqui. Para nós morreste e já nem sequer tocamos no teu nome. Preferimos deixá-lo a ganhar pó, na estante dos perdidos e achados, mas nunca te voltei a achar. Não te procuramos nem o podemos fazer. Talvez estejas escondido debaixo da minha cama, mas eu também não me posso vergar sobre ela para te ver. Não tocamos no teu nome e preferimos não o fazer. Sabemos que se o fizermos alguma letra vai deseparecer ou, pior ainda, que vamos perder algo que tu nos ensinaste. Tu ensinaste-me a escerever, a ler, a gostar de o fazer. E por isso eu faço-o. Não quero perder-te, e de certa forma, acho que isto te vai manter eterno.
Noutro dia vi-te. Estás o mesmo, és a mesma pessoa. Estás velho. Podia vê-lo através das mãos enrugadas e do cabelo desgrenhado. Andas sempre de preto e dormes de dia. É por isso que eu te chamava morcego. Mas não eras um morcego assustador, eras bem querido e sorrias para mim. Por isso é que sempre achei os morcegos animais adoráveis e nunca os temi. Também nunca te temi a ti. Mas agora faço-o. Faço-o porque sei que também me viste e não disseste nada. Faço-o porque não sei se gostas de mim, se gostavas de falar comigo, como eu gostava de o fazer. Faço-o porque sei que gostava que me ensinasses algo novo, mas sei que tens medo de mim. E eu agora também tenho medo de ti, apesar de apareceres nos meus sonhos mais fantasiosos. Como se fosses a minha única salvação mas não te conseguisse alcançar, pois corrias sempre a um ritmo descompassado e veloz.
Eras tu que me defendias sempre que ela gritava comigo, e eu adorava a tua máquina polaroid. Adorava-a como nunca adorara algum objecto. Ou todos. Gostava de poder voltar a fotografar com ela. Gostava de ser uma rapariga das artes, outra vez. Tu também vives perto delas, em frente, já para não o dizer. E eu ando sempre lá perto. Acho que gostavas do meu cabelo, porque eu parecia uma boneca. E tu eras a única pessoa com paciência suficiente para se sentar no meu quarto e inventar uma brincadeira nova. Lembro-me que um dia me balançaste na cadeira do teu escritório. Eu, querendo mais e mais, supliquei-te que me balançasses mais depressa. E tu assim o fizeste. Mas eu perdi o equilíbrio e caí no chão. Como sempre, quase chorei por uma ferida no joelho. Tu fizeste-me o curativo e prometeste que não lhe contavas. Eram assim os nossos segredos, aqueles que eu gostava. Mais do que chocolates. O teu pai também gostava muito de chocolates, mas um dia morreu. Morreu e eu sei que quando soubeste te detestaste. Eu também me detestei por segundos. Era injusto e tu não o merecias. Nem eu merecia ver-te assim.
O teu dinheiro não era muito e tu sabia-lo gastar em telas para pintar e em pincéis de pêlo de marta. Eu também gostava de ir ao teu escritório e de te ver pintar ao som do jazz. Era bom ver-te no teu elemento e era bom sentir-te pertinho. Sei que um dia também estiveste pertinho e eu não soube falar-te. Tranquei-me na casa de banho e fingi que não estava. Sabia que era a última vez que te ouviria a subir as escadas, mas mesmo assim não fui falar contigo. Não queria que me visses a chorar, ou pior, sem falar. Eu sei que não ia conseguir dizer nada e, por isso, não apareci. Sim, fui cobarde. E nem sabes o quanto me envergonho disso.
O teu dinheiro não era muito e tu sabia-lo gastar em telas para pintar e em pincéis de pêlo de marta. Eu também gostava de ir ao teu escritório e de te ver pintar ao som do jazz. Era bom ver-te no teu elemento e era bom sentir-te pertinho. Sei que um dia também estiveste pertinho e eu não soube falar-te. Tranquei-me na casa de banho e fingi que não estava. Sabia que era a última vez que te ouviria a subir as escadas, mas mesmo assim não fui falar contigo. Não queria que me visses a chorar, ou pior, sem falar. Eu sei que não ia conseguir dizer nada e, por isso, não apareci. Sim, fui cobarde. E nem sabes o quanto me envergonho disso.
Às vezes ouço-te de mansinho a ler-me poemas. E não falo. Sei que andas por aí a vaguear pela noite, tal como um morcego. Sei qua agora és livre e agradeço todos os quadros que deixaste. Mas para ela morreste. Obrigada pelas dicas, obrigada por me fazeres sentir nova cada vez que vejo a caixa das fotografias e obrigada por me ajudares a encontrar a minha luz. Ainda me lembro do teu rosto e sei as nossas brincadeiras. Ou pelo menos finjo que as sei, porque se não fingir é como se te esquecesse. E eu prefiro ter-te como uma mentira, do que não te ter de todo.
Talvez ela tomou a decisão correcta, mas ambos o sabemos que provavelmente chorou muitas vezes à noite e que foi tão difícil para ela como para ti. E como para mim. Jamais queria que te tivesses ido embora. Jamais queria que me tivesses abandonado.
Desculpa as desilusões, pai macaco.
Talvez ela tomou a decisão correcta, mas ambos o sabemos que provavelmente chorou muitas vezes à noite e que foi tão difícil para ela como para ti. E como para mim. Jamais queria que te tivesses ido embora. Jamais queria que me tivesses abandonado.
Desculpa as desilusões, pai macaco.
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