quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

De: mim. Para: ti.

Um dia ela escreveu uma carta. Usou a caligrafia de sempre, o mesmo envelope velho que usara em todas as tentativas (falhadas) de a enviar. Escreveu no papel timbrado com a tinta azul escura, da mesma tonalidade da turquesa que trazia sempre ao peito. A turquesa tinha-lhe sido oferecida por ele. Não no dia do seu aniversário, nem no Natal. Num dia como todos os outros, um dia dito "normal". Ele entrou no seu quarto com uma pequena caixa e uma expressão expectante. Tinha gasto imenso do seu dinheiro para a presentear com a tão desejada pedra, apenas para ver um sorriso enorme naquela cara. E para ver as covinhas que se formavam nas suas bochechas. Ele era assim. Frazia grandes feito e comprava grandes presentes, apenas para a ver a sorrir. E ela assim fazia.
Escreveu-lhe a carta, a carta habitual. Nunca a chegava a enviar, mas isso não lhe fazia uma grande diferença. Ela sabia que ele a lia onde quer que se encontrasse, ele sabia-a de cor. Conhecia-a como as palmas das suas mãos e manobrava-a como se ela se tratasse de uma boneca. A carta era apenas o seu reconforto diário. Tal como nós passamos o dia inteiro para chegar a casa depois de um dia estafante no mundo exterior do trabalho. Tal como ansiamos o nosso sofá e o cobertor quentinho. Ela ansiava a carta. O toque fino da caneta na mão. Às vezes falava-lhe das suas paixões, ou até mesmo das horas que tinha dormido na noite anterior. Às vezes falava-lhe dos romances que lia ou, simplesmente, declamava-lhe poemas que tinha ouvido em algum lado.
Ela gostava dele, como tudo. Como nunca tinha gostado de alguém. Mas nunca lhe dizia que tinha saudades dele. Não queria demonstrar parte fraca nem queria que ele soubesse a dor que ela sentia por ter de abraçar o nada todas as noites. Às vezes olhava para o seu quarto. Permanecia igual. A cama por fazer, a roupa espalhada no chão. Tal como no último dia.
Sabia onde ele morava e nunca depositava a carta na sua caixa de correio. Saía sempre de casa com uma vontade doentia de lhe entregar a carta ou simplesmente de tocar à sua campaínha e dizer: «Olá, sou eu de novo. Não tenho coragem para te dizer as saudades que tenho. Para te agarrar de novo e implorar que me vires de cebaça para baixo. Desculpa por isso. Desculpa por ter usado este papel para o transmitir. Espero que leias, para não ter de abraçar o nada mais uma noite.» Mas nunca o fazia. Não era vergonha. Nem ela sabe o que era. Mas existia essa relutância de o olhar. Não nos olhos, não na cara. Nem ela sabia onde.
Por isso, começou por escrever: «Querido...», mas nem o nome conseguia pronunciar. Despediu-se apenas com: «amor.» Despediu-se dele como se se despedisse de si. De tudo. Não queria voltar a ver mais um luar sozinha. Não queria voltar a acordar e chamar por ele, sabendo que nunca viria.
Apagou a vela e deitou-se. Tentou dormir e não conseguiu. Tentou chorar, mas isso não lhe foi permitido. Por isso permaneceu calada, quieta. Tinha todo o tempo do mundo para se entregar ao sono. E quando finalmente se entregou, sonhou com ele.
Ele era a sua redoma de vidro. E ela agora era a flor desabrigada no frio da chuva. O vidro quebrou-se e ela agora via o seu reflexo distorcido, como uma fotografia desfocada (ou uma memória tão egoísta que se esconde.)

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