domingo, 7 de fevereiro de 2010

Estrela - Parte II

Sabia a língua universal mas não era feliz. Talvez a conhecesse demasiado bem, e isso fazia-a sofrer. Magoava muito. Mas doía ainda mais não saber onde doía. Era tão pouco concreta, mas ao mesmo tempo tão real e desesperante que ela não sabia o que havia de fazer. Por vezes nem da cama se conseguia levantar, nem para o relógio conseguia olhar. O simples palpitar do ponteiro dos segundos deixava-a agoniada, pois sabia que estava a envelhecer a cada milésima de segundo que passava. Saíra de casa dos pais aos dezoito anos. O pai expulsara-a. «Não quero gente assim a viver sob o mesmo tecto que eu.» Mas no fundo não a queria deixar ir. Pensou seriamente em não a deixar partir, em desfazer-lhe as malas e voltar a guardar os seus objectos pessoais no quarto do último andar. Mas ela era um fantasma e assustava a própria família. Era branca como o cal, pois ficava em casa quando as irmãs iam à paria com a ama. E era magra, quase esquelética. Os olhos eram de uma tonalidade cinzenta muito escura e o cabelo era quase loiro, muito comprido. Tinha medo de o cortar.
Usava sempre os mesmos vestidos pretos e as mesmas sandálias castanhas de camurça e não tinha vergonha de andar de sandálias no Inverno. Se bem que um dia adoeceu. Estava muito frio, caíra granizo na noite anterior, mas ela usou as sandálias. Ficou tão doente que se pensou até que podia falecer ali, naquela cama. Todos os dias, enquanto esteve presa ao quarto do hospital, a mãe sentava-se na cabeceira da sua cama. Pensava que ela estava a dormir, por isso falava-lhe e desabafava. Por vezes interrogava-se como é que a sua filha era assim, tão torpe.
Um dia encontrou uma máquina de filmar antiga. Tinha uma objectiva enorme e pesava toneladas. Mas ela apaixonou-se por ela e nunca mais a largou. Comprava fitas e fazia filmes bastante sinistros ou, simplesmente, filmes. Depois pedia à sua irmã mais velha para tocar uma melodia enquanto gravava, no piano velho lá de casa, para atribuir banda sonora aos seus filmes. Saiu de casa e levou tudo. Mas o seu tudo era pouco, cabia dentro de uma pequena mala que o pai lhe tinha trazido do Japão. Ninguém chorou a sua ausência. Era como se ela fosse um simples buraco, como um problema, acabado de ser tapado ou ignorado, apenas. Era ignorada mas não era esquecida. Sempre que eram recebidos os papéis de inquérito, para o censo, o pai preenchia apenas com um "dois" no número de filhos. E sempre que iam falar com ele, ele dizia que tinha apenas duas filhas. E insistia até à última.
Desapareceu. E quando a mãe a procurou, alguns anos depois e sem o pai saber, não a encontrou. Não havia rasto dela. Estava em Hiroshima. Tinha voltado ao Japão para matar saudades dos avós, pela última vez. Sabia que em breve morreria, pois conseguia senti-lo. Pessoas assim não mereciam viver muito tempo, segundo ela.
A 6 de Agosto de 1945, houve uma explosão nuclear, em Hiroshima. Acordou de manhã bem cedo, por volta das seis, sentindo o toque leve da morte, como se de uma vidente se tratasse. Não entrou em pânico e nem se dignou a vestir-se. Se era para desaparecer, que fosse de pijama. De pijama e com o orgulho ao peito, com o pouco que lhe sobrava. Recordou todos os momentos em que se sentiu amada e recordou as últimas palavras de amor que ouvira. Viu alguns dos seus filmes, que nunca tinham sido apreciados. Bebeu o seu último chá e observou o seu último nascer do sol. Queria dizer a todos para fugirem, mas era tarde. Agora morreriam. A explosão foi como uma chama gigante de um curto-circuito. Deu-se um grande apagão e um vento fortíssimo varreu tudo, não deixando algo em pé. Os edifícios ficaram em pó. Ela agora também era pó.
Foi uma arma mortífera que desvaneceu amores e sonhos de uma vida. Famílias inteiras e casas de pedra. E, quando finalmente era seguro a polícia das localidades não afectadas se aproximarem, encontraram tuo desfeito naquela área. Tudo excepto uma pedra, a pedra do orgulho dela.

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