Desde cedo que não demonstrou grande aptidão para a escola. Não gostava de passar os dias fechada numa sala a pensar. Talvez fosse esse o seu problema, não gostava de pensar. Acabava sempre por levar os pensamentos para além do esperado para uma menina de sete anos. E por isso tinha medo. Tinha medo de pensar, tal como tinha da escola.
Sempre que lá estava era como se não estivesse. Ou melhor, como se viajasse para outra dimensão do espaço. Nunca falava, era muito tímida. Só fazia os trabalhos quando a tinham de forçar a fazê-los. Ela não era desmanzelada nesse aspecto, mas simplesmente tinha medo de errar nas contas de multiplicar ou de dar algum erro ortográfico. Daqueles que eram ridículos aos olhos dos adultos. Mas ela não sabia escrever bem, ainda era pequena e quando chegava a casa entristecia-se facilmente por precisar de ajuda nos trabalhos de casa.
No primeiro dia de aulas escolhera a carteira que ficava precisamente em frente à grande janela quadrada. Já que não conseguia olhar durante muito tempo para o quadro, olhava para o horizonte. Às vezes contava as gaivotas ou, simplesmente, olhava para o nada. Olhava para o nada lá de fora, até pensar. Não gostava de jogar à bola com os outros meninos e não gostava de bonecas, muito menos de correr no recreio. Não gostava de sujar a bata e sentia-se absurda quando a mãe a abraçava. Não gostava que lhe tocassem e detestava beijinhos de boas noites. Ela era assim, complicada. E ninguém a compreendia, nem mesmo as irmãs mais velhas.
A mãe estava gravemente preocupada com o seu estado, com o porquê de ela ser assim. Desesperada, posso até dizer. Levou-a a um psicólogo. Nem mesmo ela sabia o que fazer com a filha mais nova. Era uma criança surreal, como se uma alma de adulto, de um corpo velho e cansado, estivesse presa dentro de um corpo de menina. Não acreditava em bruxarias, mas também pensou em levá-la a uma vidente.
A menina detestava ir ao psicólogo, tal como detestava o sol e brincar. Por isso fugia. Fugia todas as Sextas-feiras em que se tinha de encontrar com o doutor. Fugia da escola e só aparecia em casa depois de anoitecer, quando tinha frio e fome. Um dia a mãe ficou tão transtornada por não a encontrar que chamou a polícia. Foram dar com ela junto a um riacho pequenino, a ver o seu reflexo distorcido na água.
«Nunca uma filha me tinha trazido tantos problemas.» Dizia a sua mãe. A menina ouvia e consentia. Não havia nada que pudesse fazer. Ela era assim, simplesmente. Como uma estrela que surge no céu e não irradia luz. Ela talvez irradiasse de mais.
Fugiu e fugiu. Foi o que fez durante toda a sua infância. Tinha talento para tal. Era cada vez mais difícil encontrá-la, pois arranjava esconderijos dava vez mais pequenos e difíceis de achar.
A sua cabeça funcionava como um quebra-cabeças que ninguém sabia decifrar. Como um cofre que ninguém sabe abrir porque se perdeu a chave. A chave dela também estava perdida. Não tinha futuro, detestava línguas e ciências. As artes não eram para ela e o desporto muito menos.
Depois de passarem alguns anos a incentivá-la, ela decidiu esforçar-se, para pararem de a maçar, e foi para línguas. Depressa descobriu que não seria bem sucedida. Errava muito no inglês e não sabia conjugar os verbos em francês. O alemão dava-lhe a volta à cabeça, quase lhe causava tonturas, assim como o espanhol. A única língua que sabia era a linguagem mais universal. A do amor. Sabia-a de cor, de trás para a frente.
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