Ela era delicada, tal como as personagens fictícias de um filme de animação. Tinha um corte recto e escuro, seguido de uma grande repa que quase lhe tapava os olhos, quando mal aparada. Usava sempre os mesmos sapatos azuis escuros de modelo rebuçado e tinha uma colecção enorme de vestidos de modelo francês, com torcidinhos finos nas alças e de saias rodadas. A sua vida era composta de rotinas, nunca as quebrava. Nesse aspecto posso dizer que era muito rígida, mas não paranóica. Também era histérica. Gostava de ler um bom livro e chorava com um bom filme. Todos os dias começava um livro novo, mas nunca o acabava. Excepto os romances. Lia-os de uma ponta à outra e sabia-os de cor. Não havia pormenor que lhe escapasse. Devorava histórias de amor. Mais do que chocolates. E como não tinha ninguém a quem amar, amava-se a ela própria. Todos os dias cumpria o seu ritual da manhã. Aquele de se olhar ao espelho e maravilhar-se. Gostava dela como nunca gostara de alguém, mas não era egoísta e, por incrível que lhe parecesse, não era vaidosa. Apenas não tinha mais ninguém quem amar e preferia amar a sua imagem do que sofrer por não ser amada.
Uma tarde, daquelas em que passava horas a fio a ler, ouviu uma pedra a bater no parapeito da janela do seu quarto. Ouviu-a como se fosse um grande estrondo numa casa inabitada que os próprios pássaros do jardim tinham medo de piar, pois o silêncio era tanto e tão absoluto que tinham medo de a assustar. Ela vivia sozinha, mas muitas vezes imaginava que crianças corriam pelas escadas e desciam pelo corrimão. Ou simplesmente ligava o seu gira-discos, coisa que nunca acontecia. Ele tinha sido oferecido por um apaixonado seu, mas nunca tinha sido utilizado. Tinha medo do som. Fazia-lhe eriçar a pele do pescoço e dava-lhe arrepios na espinha. O único som que a neutralizava era o ruído das páginas de um livro e roçar umas nas outras.
Ouviu a pequena pedra e debruçou-se sobre a janela. Mas não viu ninguém, só a pequena pedra desfeita. Voltou a olhar e viu um pequeno papel no chão com o seu nome na parte superior. Não era uma carta (antes fosse, pois há séculos que não recebia uma.) Apenas um pequeno papel pautado.
Desceu rapidamente da janela e encaminhou-se para a porta. Apanhou-o fugazmente e leu-o: «Tenho andado a reparar em ti e nos teus belos olhos. Um dia gostaria de passear contigo, apenas para partilhar conhecimentos. Eu gosto de ler, será que tu também? Eternamente teu.» Não fazia a mínima ideia do seu autor, mas assim que a leu apaixonou-se. Nunca ninguém a convidara para um passeio, excepto o apaixonado do gira-discos. Mas ela nunca fora com ele. Com este era diferente. Ele tinha uma letra fina que lhe fazia lembrar os caules das flores, das que nunca recebera. E gostava de ler. Passou tardes e noites a imaginar como ele seria. Na realidade, não lhe imaginava a cara e a altura. Muito menos a estatura. Apenas o seu chá favorito e o ramo de flores que lhe traria. Esperou dias por ele. Mas ele não aparecia. Por isso passou a ler no alpendre. Talvez ele tivesse vergonha de bater à porta. Mas passou assim metade do Verão e ele também não veio. Depois voltou a ler no quarto. Ele poderia sentir-se intimidado por a ter ali na porta de sua casa, e por isso não se dirigia a ela. Recusava-se a procurar um novo amor. Ele era-lhe fiel e acabaria por aparecer de rompante, pegando nela e levando-a com ele. Descobririam o Mundo. A Índia, a China e a Tailândia.
Esperou, esperou e esperou. O Verão acabara e com a chegada do Outono as folhas cairam, formando grandes pilhas à porta de sua casa. De seguida chegou o Inverno, que lhe gelou as escadas e a maçaneta da porta. Tudo isto pareciam as desculpas ideais para a sua demora. Mas eram apenas desculpas. Passaram-se anos e anos. Ela envelheceu. A sua cara cobriu-se de fundas rugas e as pálpebras descairam-se. Os cabelos cresceram. Ela nem saía de casa para ir ao cabeleireiro, pois ele poderia vir nesse preciso momento e ela não confiava no destino. O corpo estava mole a mal se apoiava nas pernas. Os olhos perderam a tonalidade acastanhada, ficando cinzentos e tristes. Desperdiçara a sua juventude fechada naquelas quatro paredes, esperando por um amor que nunca viria. Se calhar o bilhete tinha sido uma brincadeira de mau gosto ou um engano. Sempre que pensava nisto só lhe apetecia esconder debaixo da carpete e esperar pela hora da morte. Não tinha aproveitado a flor da idade, nem tinha conhecido o Mundo. Não tinha filhos e nunca tinha amado alguém para além dela e do homem que nunca conhecera. Talvez tivesse sido mais feliz com o rapaz do gira-discos.
Um dia adormeceu. Deitou-se na sua cama por volta das nove e meia da noite, como o normal. Nunca mais acordou. Morrera assim, sem ninguém a quem deixar a casa. Sem ninguém que a amasse mais do que ela se amou. Sem nada. É como se a sua vida nunca tivesse passado pela terra dos mortais.
Ouvia o tiquetaque do relógio. Estava de novo acordada e viva. Levantou-se rapidamente com medo de voltar a morrer e olhou-se ao espelho. Era nova outra vez. Tinha outra vez o cabelo negro e o corte recto. Os mesmos olhos castanhos e redondos, salientes daquela face jovem. Empacotou tudo o mudou-se para a cidade, para um andar moderno num local ruidoso. Agora detestava o silêncio. Deitou fora o gira-discos e comprou um rádio. Nunca abria o correio com medo de encontrar outro bilhete. Comprou um cão que ladrava todo o dia e que lhe sujava os tapetes da sala. Nunca parava em casa e pouco lia. Quando o fazia, lia banda-desenhada e livros de aventura. Nunca mais pegou num romance. Levantou-se à hora do almoço, porque simplesmente lhe apetecia. Não tinha rotinas e quando, acidentalmente, caía na tentação de fazer uma, depressa a quebrava. Saiu para a rua e falou com todos os homens que via, até com os casados. Fazia isso com alguma naturalidade e não se importava. Seduzia-os a todos e acabava por se envolver com alguns. Tinha sede de amor real e não se importava com as opiniões alheias. Ela amava por amar. Não tinha outro propósito senão amar. Amar perdidamente e sempre que podia. Saía à noite, ia a bares e discotecas. Dormiu com todo o tipo de homens e deixou crescer o cabelo.
Um dia, quando reparou, tinha envelhecido outra vez. Já ninguém a queria e ela sentia-se detestável. Sentia-se um autêntico trapo imundo. Já nem ela própria se conseguia amar.
Antes de morrer, foi à caixa do correio pela primeira vez naquela vida. Tinha lá longas cartas de amor. 365 cartas, escritas todos os dias, ao longo de um ano. Eram do rapaz que a amou. A única pessoa que alguma vez gostara mesmo dela. Não podia acreditar naquilo.
Agora chorava porque não tinha passado de mais uma rapariga sem o amor de ninguém. Não aproveitara o rapaz do gira-discos, nunca. Sabia que a vida não lhe ia dar mais nenhuma oportunidade e sentia-se a morrer. Ela agora era tão pouco. Detestava-se profundamente. Não tinha dado o devido valor à chance que lhe tinha sido conferida e não se tinha partilhado um lar com ninguém. Nem o seu cão, agora morto, gostara dela. Esquecia-se que tinha o bicho e era raro alimentá-lo. Só pensava em paixão, em romance, em pseudo-amar.
Num dia normal, como todos os outros, morreu. Caiu morta no chão do terraço. Foi a vizinha que deu com ela sem pulso ou respiração. Nunca gostou dela, via-a como uma depravada sem tino. Mas deu-lhe um enterro digno, mas não apareceu lá. Não queria prestar homenagem a alguém assim, por isso apenas financiou o funeral, pagando tudo o que foi preciso.
No dia em que foi enterrada, o tempo estava estranho. Ora chovia, ora fazia sol. A única pessoa que para lás e encaminhou foi o rapaz. Agora estava muito velho e cínico. Gostava de a ver assim, morta e sem cor, pois sentia-se traído por ela nunca o ter amado. Mas não podia deixar de lhe deitar flores e de reforçar aquele ambiente melancólico no cemitério.
E assim, ela finalmente recebeu o seu primeiro ramo de flores. Eram hortênsias simples, que simbolizavam toda a sua frieza. Todavia, eram as suas flores favoritas. Diz-se que nesse dia o número de divórcios triplicou e de viúvas e viúvos abandonados também. Os casamentos começaram a escassear e as flores murcharam. O amor é isto.
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